Catarina é a minha primeira personagem feminina. Foi inspirada em uma grande amiga, Catarina Souza Lima, prima do Ziraldo. Catarina, a Festiva era uma jovem brilhante, feminista, independente e enfezada, típica representante da esquerda festiva carioca.
Essa tira foi publicada em 1968 no jornal editado pelo estilista e desenhista Gil Brandão, o Jornal do Gil
Foi no Caderno B também que publiquei meu primeiro personagem fixo de grande circulação: Dr. Fred, uma tira de humor sobre psicanálise. Comecei a fazer terapia em 1971, e rapidamente fiquei fascinado pelo assunto.
Dr. Fred era um analista, sempre sentado do lado esquerdo da tira, ao lado de um divã, debochando das questões dos pacientes ou simplesmente rindo cinicamente da condição humana, oferecendo uma visão bastante ácida dos dilemas da vida através da psicanálise.
Dr. Fred em italiano, inglês e alemão, para publicações europeias.
O fato de ser então um tema um tanto inédito para uma tira tornava o trabalho interessante – agradando o público mais intelectualizado do jornal –, mas também justifica, hoje, uma certa ingenuidade no texto e nos temas - eu, afinal, tinha somente vinte e poucos anos.
Não só a figura como o espírito do Dr. Fred eram inspirados no comediante americano Groucho Marx, até hoje referência fundamental em meu trabalho e até mesmo em meu modo de ver o mundo.
O Capitão Eco foi provavelmente o primeiro personagem dos quadrinhos a falar de ecologia no Brasil. Era um super-herói defensor da natureza, que lutava contra o malvado Dr. Polu e sua nissão maligna de poluir o planeta. Ecologia era um assunto realmente novo, as tiras eram bonitas e bem resolvidas, e esse foi meu primeiro trabalho a satisfazer, de fato, a minha autocrítica e alcançar maior penetração popular.
Tanto o caderno I quanto Capitão Eco eram coloridos e simpáticos, e foram muito bem aceitos pelo público, ao longo de mais de dois anos. Antes da Radical Chic e do Gatão de Meia-Idade, foi esse o personagem que me projetou e me sustentou. Publiquei também em São Paulo, Porto Alegre e outras cidades do Brasil.
O Capitão Eco tornou-se meu passaporte para a Itália. Quando fui a Milão, em 1972 - justamente a fim de plantar as sementes para tentar uma mudança efetiva - levei as histórias publicadas no Brasil e o Marcelo Ravoni, que se tornaria meu agente na Itália, gostou muito do que viu. O mercado de pôsteres era forte na Europa, criei para ele um pôster do Capitão Eco, e Ravoni decidiu começar a vender o personagem. Esse foi o voto de fé para minha mudança. E, de fato, O Capitão Eco foi meu principal ganha-pão nos anos em que morei na Itália.
O primeiro personagem que publiquei na AlterLinus foi o detetive Raymond Gross. Era uma tira policial, abertamente inspirada nas histórias do escritor americano Raymond Chandler – o nome do personagem não se deu por acaso – toda ambientada sob um clima noir, passada nos anos 1930. Meu desenho ainda era ruim, mas as histórias em si eram ótimas.
O editor chefe de ambas as revistas era Oreste Del Buono, importantíssimo dentro da história do quadrinho europeu reconheceu em Raymond Gross um certo potencial cult, gostou das histórias e decidiu apostar no personagem.
A Linus era o sonho dos cartunistas europeus. Uma revista de quadrinhos variados, de alta qualidade de impressão e diagramação, com excelentes entrevistas e reportagens, mas mantendo as tiras como protagonistas. Seu estrondoso sucesso, construído inteiramente através das vendas em bancas de jornal, era justificado por um inabalável conceito que sustentou a concepção da publicação: no quadrinho cabe tudo, e através dele é possível tratar de qualquer assunto. A qualidade era o único ponto de união entre as histórias publicadas.
O sucesso era tão grande que rapidamente a revista se multiplicou. Dela brotou então a AlterLinus, espécie de filhote alternativo, reunindo quadrinhos de aventura e histórias adultas mais longas, permitindo à Linus se manter como uma revista mais estritamente de tiras e cartuns de humor. Não era fácil publicar na Linus, portanto a AlterLinus se tornou também um norte a se almejar. Passei a frequentar regularmente suas páginas, como leitor e colaborador.
A revista Alter Linus me encomendou um novo personagem. Convidei então Franco Serra, irmão de Fulvia Serra, editora executiva da revista, para criar comigo essa nova história. Franco ficou encarregado de escrevê-la, e eu dos desenhos. Nascia assim Donna X, personagem que permaneceu por bastante tempo como história fixa da revista.
Donna X contava as aventuras de uma mulher que perdia a memória e a cada edição era confundida com alguma figura histórica ou literária, envolvendo-se assim com personagens conhecidos do público. Ora pensavam que ela era Josephine Baker, ora ela participava de caçadas ao lado de Ernest Hemingway ou era confundida com a assistente do célebre ladrão francês Arsène Lupin, criado por Maurice Leblanc.
Foi a primeira grande experiência gráfica que vivi na Itália. Pude me preocupar estritamente com o desenho, liberto que estava do compromisso de criar a história. Minha função pela primeira vez era somente dirigir um roteiro – transformar uma história em imagens, e assim me aprimorar e mergulhar fundo somente em meu traço.
Por força do êxito da Donna X, Franco e eu fomos contratados pelos cigarros Peter Stuyvesant para contar a história do holandês que batizava a marca - um dos fundadores da ilha de Manhattan. Havia entrado em vigor na Itália uma lei que proibia a propaganda de cigarro, e essa história em quadrinhos foi uma das alternativas encontradas para continuar a se fazer propaganda, ainda que indiretamente: utilizávamos simplesmente o nome e a história do personagem, sem qualquer menção ao tabaco ou à venda do produto.
Assim, criamos uma louca aventura utilizando o próprio Peter Stuyvesant como personagem, com índios e corrupção no porto de Nova Iorque, passada nos mares e nas ruas da recém fundada cidade. Toda semana quatro páginas dessa história eram publicadas na AlterLinus.
O Corriere dei Piccoli foi a mais importante publicação infantil da Itália – quiçá do mundo. Era um suplemento do jornal Corriere della Sera, no formato de revista, e vendido separadamente. A revista existiu de 1908 até 1995, e foi pioneira na publicação de quadrinhos infantis, se tornando parte do imaginário de muitas gerações italianas.
Além do Capitão Eco, publiquei no Corriere outras histórias em série. A principal delas talvez tenha sido Duda, Il Calciatore (Duda, o jogador de futebol), um menino brasileiro, morador da favela da Mangueira que, vendo de sua janela o Maracanã, sonhava em ser jogador. Seu irmão, seu grande ídolo e também excelente atacante, havia entrado para o crime, e o dilema do personagem orbitava em torno da perda dessa referência e de seu esforço para se tornar um jogador profissional.
Era uma história em quadrinhos densa publicada em uma revista infantil. Não me valia somente do humor, mas também de uma narrativa mais séria sobre o terceiro mundo. A escolha desse cenário me permitiu manusear meu saudosismo, ambientando as aventuras de Duda nas ruas do Rio de Janeiro, no calor das praias cariocas, nos subúrbios da cidade - cenários exóticos e sedutores para o público italiano, que ajudaram a alavancar o sucesso do personagem.
Duda alcançou o gosto popular, e foi escolhido como mascote do Corriere para a Copa do Mundo de 1978. Durante o torneio a revista distribuiu como brinde um bonequinho de plástico do personagem, vestindo as camisas de cada uma das seleções, e um tabuleiro, com um apoiador para que os bonecos ficassem em pé. Era possível então formar sua própria seleção nacional de “Dudas”, e disputar uma espécie de Copa do Mundo de tabuleiro. Além desse jogo, foram distribuídos adesivos, camisetas, os mais diversos tipos de produto envolvendo Duda e a Copa.
Foi para o Jornal da República, do Mino Carta, que eu criei a tira Happy Days, meu primeiro produto nascido do questionamento entre o humor político tradicional e o humor de comportamento. Procurei na classe média brasileira o potente material para a criação de uma série de personagens que pudessem comentar o país por um outro viés falando, não apenas dos acontecimentos políticos, mas de seu efeito sobre as pessoas comuns.
Happy Days mostrava uma família à primeira vista tradicional composta por pai, mãe e dois filhos - uma menina e um menino. O pai era um ex-militante do Partidão, que acabou se tornando bancário; a mãe, personagem principal do quadrinho, era uma dona de casa sem qualquer autoestima, mas que levantava e compreendia as questões principais da história, como uma espécie de coro grego, sempre instigada pela filha, feminista fervorosa. Já o filho mais velho, queria ser bailarino - para desespero do pai. Não era necessariamente gay, nem sequer expunha sua sexualidade como parte do seu conflito. A única coisa que queria era dançar.
Do Jornal da República, Happy Days migrou para a Revista Isto É que ampliou a voz dos personagens, atingindo um público consideravelmente maior. Passei a habitar a última página da revista e o quadrinho se tornou colorido. Foi a primeira vez que ocupei página inteira de uma publicação relevante no Brasil.
Fiz Happy Days por dois anos e até hoje considero um dos meus melhores trabalhos, além de uma experiência fundamental para o caminho que viria a trilhar. Happy Days foi o passo precursor para a Radical Chic.
Quando voltei da Itália, passei a me dedicar ao quadrinho de comportamento, de relacionamentos amorosos e especialmente a partir da ótica feminina. Não havia, até então, espaço para o humor em quadrinhos sobre orgasmo, aborto, homosexualidade, sobre sexo em si, de forma natural e real. É compreensível, ainda que questionável, que em uma situação de ditadura, tais questões fossem tratadas como secundárias.
Trazendo na bagagem mais do que um portfólio vistoso, descobri em mim uma capacidade nova de responder a quantidades enormes de demandas profissionais diversas. Aproveitando a reação positiva com o meu trabalho, pude produzir muito e esse fluxo criativo que levaria a criação da Radical Chic.
Eu Jamais gostei da ideia que eu era o pai da Radical Chic. Sou, na melhor das hipóteses, um parceiro seu. Eu não determino o que ela faz, nem nunca impus nada à personagem. A Radical é uma pessoa completamente independente de mim, como se ela fosse simplesmente alguém que eu conheço muito bem, e por isso lhe dou voz. Mas não sou eu que cria essa voz; a voz é interamente dela.
Não é incomum eu ter uma ideia, mas rapidamente concluir que não poderia usá-la, pois ela própria não pensaria assim. Eu simplesmente sei, afinal trata-se de um casamento de quase 40 anos.
Que Maneira melhor de questionar o poder do que procurando o único olhar realmente marginal em qualquer contexto? Para além de orientações políticas, raças, religiões ou épocas, foram sempre os homens os donos da voz e, tornou-se evidente a riqueza subversiva do comportamento feminino, ambivalente e multifacetado, transparente e profundamente questionador e sua potência como vetor possível para o humor.
A faixa dos 30 é, a meu ver, o período mais inquietante da alma feminina, de transformações e questionamentos sobre o futuro. É quando ela se casa, se separa, muda de emprego, como um primeiro momento de revolução. Essa seria, portanto, a idade perpétua do personagem. Hoje, com as mil mudanças que o mundo viveu desde o início dos anos 80, a tendência é que a mulher tenha rejuvenecido e, com isso a idade da Radical, e os conflitos que definem sua natureza, tenham se elevado um pouco. Talvez hoje ela tenha quase 40, mas o espírito permanece o mesmo.
Quando, pouco tempo depois, o Jornal do Brasil solicitou ao Veríssimo a criação de uma tira do personagem, natural e felizmente ele sugeriu meu nome. Nascia assim uma parceria muito feliz e frutífera: foram dez anos diários de Ed Mort em quadrinhos, além de cinco livros com aventuras mais longas.
Apesar de não ser o meu primeiro detetive, Ed Mort se diferenciava de Raymond Gross por ser um personagem de humor, debochando justamente dos clichês ao redor do universo noir das histórias policiais. É o oposto do que se espera de um detetive: nem corajoso e durão, nem soturno ou marginal. Luiz Fernando Veríssimo, como leitor assíduo do gênero, soube perfeitamente transpor a lógica do humor e dos quadrinhos à personalidade de um detetive errático, um tanto fracassado e decadente, frágil e sem talento evidente - um anti-herói dos anti-heróis que já costumavam ser tais detetives, substituindo a densidade existencial pelo humor e a piada como elementos determinantes e diferenciais.
Foi justamente durante o período em que ilustrei sua coluna na Revista de Domingo que Veríssimo publicou as primeiras histórias do personagem Ed Mort, ainda no formato de crônica. A partir de algumas poucas características físicas descritas no próprio texto, eu naturalmente desenvolvi a figura do detetive - a personalidade gráfica daquele personagem até então literário. O bigode e a maneira de ser já eram elementos importantes no próprio texto, e para trazer o personagem para a vida visual foi um passo.
Resolvi por conta própria adaptar uma história para os quadrinhos do Ed Mort para a Playboy, que se não me engano jamais chegou a ser publicada. Ainda assim, reconheci naquele trabalho um belo potencial; levei os desenhos para o Veríssimo, em Porto Alegre, e ele também gostou muito.
Com o passar dos anos, o interesse do público masculino pela Radical fez brotar nos leitores um desejo que se desdobrou numa espécie de desafio para mim: tratar das questões dos relacionamentos, comportamento e da vida pela ótica masculina. A origem do personagem Gatão de Meia-Idade se deu, portanto, inicialmente a partir mais de um pedido do público do que de minhas percepções ou anseios criativos. Em pouco tempo, porém, identifiquei nesse anseio dos leitores um profundo anseio meu.
Se no universo feminino a subversão vinha como algo natural e até essencial, para a criação de um personagem masculino um certo dilema se impôs: localizá-lo nesse viés crítico comportamental exigia que o personagem fosse de certa forma vítima desse mundo masculino, branco, heterossexual, pragmático e sectário do qual ele próprio fazia parte; era preciso que ele fosse um anti-herói.
Dessa forma, o Gatão foi criado como a própria encarnação de seus questionamentos, fraquezas e dúvidas, e não de seu olhar crítico sobre o mundo. Não bastava ser homem, como em muitos sentidos bastava para a Radical Chic ser mulher.
Portanto, o Gatão é um personagem que encontra-se justamente sobre o nó de sua própria essência, questionando as idiossincrasias que o definem. É um homem em estado de conflito, vítima do peso da imagem masculina, em um momento de exceção e crise. Enquanto as personagens femininas questionam o mundo, o status quo, o que está estabelecido através de sua própria afirmação, o Gatão questiona a si mesmo.
A dificuldade e o prazer de trabalhar o Gatão se intensificaram quando percebi que esse seria o primeiro personagem em que poderia criar uma certa relação mimética de fato entre mim e ele - foi quando enfim pude incluir meus dilemas pessoais diretamente na narrativa de um personagem. Enquanto a Radical acontece fora de mim, o Gatão na maior parte dos casos questiona as minhas questões. Sua voz é frequentemente a minha voz - minha indignação, minha reflexão, minha perplexidade. Para mim, ele é um personagem muito mais pessoal do que a Radical Chic.
Na década de 1980 a revista Capricho da editora Abril mudou sua linha editorial. Deixou para trás as fotonovelas e passou a ser uma revista de comportamento, moda e beleza dirigida ao público feminino jovem, adotando inclusive o slogan "a revista da gatinha".
Mirando esse público adolescente, eu criei a personagem Guta, uma menina de dezessete anos às voltas com os dilemas das garotas da sua idade. Inicialmente a seção chamava-se Meu Diário, passando posteriormente a assumir o nome de sua personagem principal.
Desde que havia voltado da Itália, e assumido o propósito comportamental como tema central do meu humor, essa era a única voz que faltava: primeiro veio a afirmação feminina, depois a sensibilidade masculina; com a Chiquinha, finalmente a família estava completa: mãe, pai e filha.
Diferentemente da Radical Chic, que em alguns sentidos inaugurava um filão dentro do quadrinho, os personagens infantis já existiam aos montes quando criei a Chiquinha. Sem dúvida uma grande inspiração para isso foi a Mafalda, do Quino, provavelmente meu personagem infantil preferido. A diferença primordial, no entanto, é que a Mafalda é feita para também ser lida pelos adultos – pela criança que há em um adulto, ou pelo adulto que há em uma criança. Minha intenção com a Chiquinha foi sempre de que ela fosse lida pelas crianças.
Chiquinha procura o aspecto crítico e sincero como seu foco principal, podendo livremente ser vista como uma espécie de retrato da infância da Radical Chic.
A patrulha comportamental que sempre me acompanhou não deixou escapar nem a Chiquinha. Fui criticado por fazer histórias “excessivamente francas”, em que a personagem afirmava, por exemplo, não gostar de comer verduras, ir à escola, acordar cedo ou obedecer os pais. Adultos me escreviam acusando a história de servir como um mal exemplo, um “desfavor” pedagógico – sempre baseando-se na absurda crença de que esconder a verdade de algo pode ser melhor do que revelá-la.
A certeza de que retratar algo com sinceridade é sempre positivo vinha justamente da reação das próprias crianças, que me escreviam semanalmente – muitas vezes em cartas escritas a mão – declarando sua identificação com a personagem, e o entendimento e a reflexão que eram capazes de alcançar através dessa identificação. Algumas das histórias publicadas foram justamente inspiradas em relatos que as próprias crianças me enviavam, a fim de corroborar certa impressão ou afirmação de uma tira anterior. Era uma relação gratificante pela honestidade e assertividade desse afeto.
Bebel, a Top-top model, personagem
criada para a revista Contigo!