A Feira da Providência, evento que acontecia anualmente no canteiro da Lagoa Rodrigo de Freitas, era uma frente de trabalho para os cartunistas, onde se podia ilustrar panfletos e eventuais materiais gráficos dos stands e, principalmente, vender os nossos cartazes.
Entre eles, esse que eu fiz em serigrafia mostrando um típico hippie da época com um cartaz nas mãos, e seguia uma lista sem lógica nem critério, indo contra toda sorte de ideologias, orientações e tendências da época. Tratava-se de uma cartum cartaz, muito mais anárquico que politicamente subversivo.
O cartaz foi um sucesso, mas o pessoal da Marinha que fazia a segurança da Feira me denunciou. Fui informado que o Centro de Informações da Marinha (CENIMAR), esteve na Feira procurando pelo autor do cartaz, e apreendeu os exemplares restantes. Me foi recomendado que eu sumisse por uns tempos, só por garantia. Amedrontado, me escondi no Bairro de Santa Teresa. Fiquei por lá cerca de uma semana, até ter a certeza de que não havia nada contra mim e que ninguém estava me procurando.
Respirei aliviado e voltei à realidade, que em breve viria a delirar bem mais e pior do que se podia imaginar.
Em julho de 1969 os Mutantes vieram ao Rio para realizar o seu primeiro show Planeta dos Mutantes, e era escrito e dirigido por José Agrippino de Paula. Agrippino criou uma dramaturgia louca para o espetáculo. Repleto de bailarinos e atores coreografados por Maria Esther Stokler, um pano de fundo perfeito para o maravilhoso som de Arnaldo Baptista, Sergio Dias e Rita Lee.
Fui convidado para fazer o cartaz do show e procurei ser tão doido como a proposta geral. A cenografia era parte determinante do espetáculo, com um monstro enorme que saía do meio do palco. Além do monstro, um telão exibia trechos nada sutis de cirurgias em cérebros.
Planeta dos Mutantes ficou em cartaz por mais de três meses e para a minha tristeza o cartaz permaneceu perdido por quase 50 anos. Tentei, ao longo dos anos, com integrantes, os fãs inveterados da banda encontrar o cartaz, mas ninguém sabia do paradeiro de alguma cópia através da qual eu pudesse refazer essa arte.
Quarenta e seis anos depois, em 2015, encontrei um exemplar do cartaz à venda em um site, mas o preço era exorbitante. Meus filhos tentaram me convencer a comprá-lo, mas para mim não fazia sentido pagar tão alto por um trabalho que eu mesmo fiz.
E foi também que, através da Internet eu conheci o trabalho do Fabrício Bizu, um dos maiores especialistas e pesquisadores em psicodelia brasileira. Ele conhecia o cartaz, e o refez, resovendo assim uma frustração pessoal que já levava cinco décadas
Ilustrar cartazes para cinema era um filão importante da profissão, bastante prazeroso pelo tamanho do desenho e pela exposição garantida, mas que, pelos mesmos motivos, exigia qualidade, talento e esperteza – traduzir o espírito do filme em desenho – para se alcançar uma solução gráfica atraente. Ziraldo era muito solicitado para essa finalidade e, como seu assistente, participei ativamente de alguns de seus trabalhos como cartazista.
Me orgulho principalmente do trabalho que fizemos juntos para dois dos filmes estrelados por Roberto Carlos – Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa e Roberto Carlos a 300km por hora.
No segundo, com muito orgulho e certo temor, pela primeira vez pude realizar um trabalho importante sozinho, somente com a instrução e a supervisão de Ziraldo. Desenhei o carro, colorido em alta velocidade, saltando do papel, e diagramei o pôster. Por ter feito basicamente sozinho, Ziraldo sugeriu que o cartaz fosse assinado como Estúdio Z, e não com seu nome, como era de costume.
Cartaz do filme Pais Quadrados, Filhos Avançados, dirigido por JB Tanko, e Memória de Helena, dirigido por David Neves - cartaz que já fiz sem o Ziraldo, com a diagramação da Martha Alencar.
No início dos anos 80, quando já havia voltado de Milão, Roberto Maksud, dono do hotel Maksud Plaza me perguntou se eu sabia de algum artista que poderia ser interessante para se apresentar em seu hotel. Imediatamente pensei no Paolo Conte.
Paolo Conte, assim como Lucio Dalla, foi responsável por uma profusão de novidades na música italiana. Pianista e compositor extraordinário, sempre vestido de terno ou smoking, Conte mistura a canção tradicional italiana com o Cabaré e o jazz, muito influenciado pela música americana da primeira metade do século XX, que se tornou um personagem presente na minha vida, como amigo e trilha sonora de uma época.
Essa parceria entre a Radical Chic e o Ministério da Saúde se estendeu por muitos anos. A partir dela, fui convidado pelo estilista Carlos Tufvesson a criar um produto anual para ser vendido dentro da campanha A Moda na Luta contra o HIV. Fazia parte dessa campanha um gigantesco painel que todo ano era pendurado na lateral do Hotel Marina, no Leblon, com a Radical anunciando o início do projeto.
Jornal do Brasil - Carderno B
O IDAC transferiu a sua sede de Genegra para São Paulo e continuou sua dedicação aos direitos da mulher e à educação de adultos. Nos reaproximamos e começamos a produzir muito material educacional para o público brasileiro. Fizemos diversos livros ligados à questão feminina, cartilhas de educação sexual, saúde e projetos ilustrados de alfabetização.
Certa época, passei a ser chamado, dentro do IDAC, de “mulher barbada”. Eu era o único homem num grupo quase inteiramente formado por mulheres, falando sobre e para o universo feminino. As mulheres do instituto eram responsáveis por conceber conceitualmente e textualmente o conteúdo dos trabalhos, e eu me encarregava de traduzir esse conteúdo para o desenho. Tal encargo me levou a aprender bastante sobre peculiaridades e aspectos da existência da mulher que raramente os homens sequer entravam em contato.
O livro de Sergio Costa e Silva conta a trajetória desse evento, criado por ele.
Por duas décadas, o projeto leva apresentações gratuitas de música clássica para além das tradicionais salas de concerto, em vários estados e países e algumas passagens curiosas em apresentações no Rio e no exterior.
Nesse mapa, Miguel revela todas as personalidades que transformaram Ipanema no bairro mais icônico do Rio.
Entre elas, Vinícius e Tom, a Garota de Ipanema, Jaguar, Jô Soares, Gal Costa e muitos outros.
Locais como a sede do Pasquim e da Banda de Ipanema, também ganham destaque no mapa patrocinado pela TYR Energia.
Editor: Eduardo Cantidiano
Arte: Miguel Paiva
Gráfica: EGD COMUNICAÇÃO