O clima de esperança e renascimento no cenário político e cultural Brasileiro se diluiria em pouco tempo, principalmente com o veto às eleições diretas em 1984. A ressaca inconteste do belíssimo movimento Diretas Já e o paroxismo da crise econômica, não só eu, mas muitos artistas brasileiros ampliaram suas atividades. Tendo o humor como elo comum desses novos braços profissionais, comecei a escrever para teatro, cinema e televisão.
O Zé Rodrix estava fazendo a direção musical do espetáculo Pó de Guaraná, uma adaptação do espetáculo americano Fortune, de Bill Russel e Ronald Melrose, dirigida aqui por Wolf Maia. Ainda faltavam algumas músicas para entregar, e o Zé me convidou para termina-las com ele (a canção tema do espetáculo se tornaria sucesso na voz das Frenéticas).
O êxito de Pó de Guaraná lançou meu nome e do Zé Rodrix como novos autores de musicais brasileiros. Não havia sequer a sombra do enorme mercado desse gênero que hoje protagoniza comercialmente o cenário teatral brasileiro, e trabalhar com musicais era ainda uma aventura para poucos corajosos. Além das letras feitas com o Zé Rodrix, criei o cartaz do Pó de Guaraná.
Band-Age! é um espetáculo espontâneo e jovem que tratava então de questões contemporâneas. Era um texto engraçado e mais leve, com um repertório de canções que nos satisfez bastante, todo escrito pelo Zé Rodrix e por mim.
O musical foi criado na carona do cenário político e cultural do país, e procurava perfilar personagens crescidos sob o efeito do que vivemos durante a ditadura, dos anos 1970 até a abertura política – alcançando assim o embate com a nova realidade comportamental dos anos 1980. Enquanto o Brasil antes era nitidamente dividido entre esquerda e direita, em Band-Age! eu e Zé dividimos os personagens entre “pensantes” e “dançantes” como o conflito essencial daquela narrativa.
O Zé Rodrix era muito esquemático, e gostava de desenhar uma espécie de storyboard com todo o roteiro da peça, criando assim uma verdadeira partitura gráfica da evolução dramatúrgica dos personagens e dos conflitos narrativos. Nos baseavá-mos nesse storyboard diariamente para desenvolver tanto os caminhos dramáticos quanto os momentos musicais do espetáculo.
Autores: Zé Rodrix e Miguel Paiva
Direção: José Possi Neto
Cenografia: Felippe Crescenti
Direção musical: Zé Rodrix
Coreografia: Sonia Mota
Band-Age! conta a história de oito estudantes de um cursinho, em vias de fazerem a prova do vestibular - quatro personagens pensantes e quatro dançantes, representando de certa forma os “politizados” e os “alienados”. Sem tomar partido, porém, exploramos as contradições e crises existenciais desses rótulos duros que ruíam com o desenrolar da abertura política, colocando ambos os grupos para aprenderem sobre a vida um com o outro.
Apesar dessa divisão ainda inspirada na cisão maniqueísta do passado, há entre os personagens um cardápio comportamental variado, que os significa de maneira muito mais contundente e profunda do que suas orientações políticas. O que move de fato os conflitos íntimos de cada personagem em Band-Age! são suas personalidades profundas - o fato de um deles ser homossexual, de outro ser machista, ou de uma menina ser pobre diante da menina rica porém de esquerda, a maneira com que a personagem lésbica se vê e é vista por todos (inclusive pela outra jovem heterossexual que, no entanto, é também mal falada por ter tido muitos parceiros), e assim por diante. Nosso intuito foi justamente tentar trazer à tona o que havia se ocultado sob os escombros da cisão ideológica dos anos 1970 no retrato da juventude brasileira de então.
Foi necessário que pesquisássemos a vida de Heleno para que pudéssemos escrever o texto. O resultado da pesquisa nos agradou tanto que rapidamente concluímos que tínhamos que fazer um espetáculo, um musical para teatro sobre Heleno de Freitas. Já tínhamos o nome: Heleno – Um Homem Chamado Gilda.
Wolf Maia desde o início se apaixonou pelo texto e pelas canções do espetáculo, e prontamente decretou que Heleno – Um homem chamado Gilda seria dirigido por ele. Montado em 1996, em uma produção bastante bonita, trazendo, entre outros, Raul Gazola como personagem principal e, para nossa felicidade, Marya Bravo, filha do Zé Rodrix, no elenco.
Heleno foi provavelmente o primeiro “craque problema” do futebol brasileiro. Formado em advocacia, viveu a glória máxima do futebol nos anos 1940, jogando pela Seleção Brasileira e principalmente pelo Botafogo. O maior ídolo do Botafogo antes de Garrincha, além do talento no gramado, derretia os corações femininos com seu porte elegante e sua tendência boêmia e sedutora. Heleno fez parte do aurático jet set carioca da época, frequentando os melhores restaurantes, as melhores festas e as melhores mulheres – reza a lenda que até Eva Peron deitou-se sob os lençóis do atacante.
O vício em drogas e a vida desregrada, no entanto, lentamente começaram a vencer Heleno, e sua queda foi tão vertiginosa, veloz e intensa quanto havia sido seu apogeu. Em dado momento o jogador contraiu sífilis, e complicações por conta da doença o levaram a ser internado em um sanatório para loucos em Barbacena, interior de Minas Gerais, onde viria a morrer aos 39 anos. Sua beleza irrepreensível e seus trejeitos debochados de galã – diziam que Heleno jogava com um pente no bolso do short, para pentear os cabelos depois dos frequentes gols de cabeça – o levaram a receber, das torcidas adversárias, o apelido de Gilda, em alusão ao personagem vivido nos cinemas da época por Rita Hayword. Sua história de vida e seu fim melancólico serviam perfeitamente como ponto de partida para a história.
A trama tem como personagens centrais Cláudio e Janete. Diante da decadência financeira, o casal demite os empregados, mas não consegue lhes pagar o que deve. Cláudio é um executivo desempregado; sua mulher lamenta o fato de ele nunca ter se aproveitado das falcatruas ao seu redor, para se estabilizar financeiramente.
Direção: Moacir Chaves
Autor: Zé Rodrix e Miguel Paiva
Gênero: Comédia
Elenco: Paula Burlamaqui, Felipe Camargo, Marcos Breda e Marília Medina
O documentário retrata a vida e obra do deputado federal e senador constituinte Nelson Carneiro. Nascido na Bahia e Botafoguense, Nelson Carneiro foi responsável pela aprovação de mais de mil leis, dentre elas a Lei dos Royalties de Petróleo e do controle de caça às baleias, mas sua luta mais celebre e especial se deu para implantar o divórcio no Brasil.
O longa documental entrelaça a vida e a história do grande político brasileiro, peça chave na promulgação da nova constituição brasileira durante a redemocratização, com as lutas do movimento feminista e da sociedade em favor da mulher. Bem como seu papel de destaque, ainda que nos bastidores, nos fatos políticos relevantes da segunda metade do século XX e na busca das minorias por liberdade e direitos civis.
Direção: Emilia Silveira
Roteiro: Miguel Paiva
Delicadeza é a adaptação de uma peça inédita, escrita em 2003 pelo autor e jornalista Miguel Paiva. Conta a história de Duda e Bia, duas amigas de longa data que não se viam há 12 anos. As duas têm uma lembrança perturbadora da festa de 15 anos de Duda. A festa terminou em desgosto e abuso de álcool. Agora, na casa dos 30 anos, os dois se reencontram, na mesma casa onde aconteceu a festa, para rever suas vidas, enfrentando todas as reviravoltas e surpresas de todas as transformações pelas quais passaram durante os anos em que estiveram separados. Parece que aquela festa nunca acabou.
O filme se passa no final dos anos 90, em uma democracia recém-criada onde as mulheres encontraram espaço para se libertar, mas ainda com muitos resquícios de um tipo de sociedade em que as mulheres foram criadas para casar. Essas duas mulheres são filhas de uma geração que viveu a ditadura militar, quando as mulheres casavam, tinham filhos e, se quisessem ser quem eram, tinham que quebrar certos padrões. Alguns segredos só podem ser contados ao melhor amigo.
Direção: Ciça Castelo
Roteiro: Ciça Castelo
Documentário que retrata o poder da coletividade que transforma pessoas marcadas pelas barreiras impostas pelo HIV e acompanha seis personagens em diferentes contextos sociais..
Direção: Emilia Silveira
Roteiro: Miguel Paiva
CALLADO é uma biografia sobre o escritor e jornalista Antonio Callado. O documentário relembra a luta pela democracia, os compromissos com o Brasil e os fatos chocantes da vida do escritor. Suas famosas peças que percorreram o século XX também se destacam no filme, hoje representam uma verdade alarmante sobre a era negra de nossos tempos. Seus colegas de trabalho, amigos e familiares como sua esposa viúva e sua filha, Ana Arruda, tentam explicar neste filme quem foi Antonio Callado. Mas, ao final, há uma dúvida que se destaca. Talvez o verdadeiro Callado não seja aquele que pensamos conhecer, da vida real, mas aquele que vive preso em seu livro, sendo libertado pelo poder da imaginação de seu leitor.
Direção: Emilia Silveira
Roteiro: Miguel Paiva
Ator: Carlos Gregório
As aventuras de um homem divorciado de classe média na casa dos quarenta, sua vida amorosa e seu relacionamento com as muitas mulheres de sua vida e sua filha adolescente.
Direção: Antonio Carlos Fontoura
Roteiro: Miguel Paiva
Elenco: Alexandre Borges, Julia Lemertz, Cristiana Oliveira, Thais Feroza, Angela Vieira, Rita Guedes, André Dibiase, Paulo Cesar Pereio, Ilka Soares, Thelma Reston
O filme narra duas histórias: a primeira se passa no Rio de Janeiro na década de 1950 e a segunda, de caráter mais político, se passa durante o Golpe de 1964 no Brasil.
Direção: Ivan Cardoso, John Hebert
Roteiro: Daniel Mas, Miguel Paiva
Elenco: Carla Camurati, Paulo Cesar Grande, Carina Cooper, Pedro Cardoso, Andrea Beltrão, José Lewgoy, Vera Zimmerman, Wilson Grey
Miguel Paiva e Regina Zappa se reúnem mais uma vez para falar sobre idade, ou melhor, falar do preconceito contra as pessoas de idade. Contra o chamado Etarismo, palavra que entrou na moda e que tenta explicar a situação dos mais velhos nesse mundo que parece ser comandado pelos jovens. Ledo engano.